As facilidades proporcionadas pela tecnologia e pelas redes sociais alterou, inquestionavelmente, todos os cenários sociais. Dentre eles, a música.

Nunca foi tão fácil e rápido (e por quê não, barato?) promover-se como artista, divulgar o próprio trabalho e criar a rede de contatos necessária para se estar no meio musical.

Há pouco tempo atrás, músico fazia música. Hoje, não há uma banda que não esteja envolvida no Music Business, tratando de negócios, da parte financeira, do marketing, etc. Os artistas estão se tornando cada vez mais versáteis.

Isso parece ruim?

Podemos até pensar que isso atrapalha o processo criativo, mas muitos dizem que não; que o atual contexto exige essa dinâmica.

Não há dúvidas que o bombardeio de informações em que vivemos prejudique nossa capacidade criativa, mas, a boa notícia é que isso pode estar originando uma nova geração de profissionais no cenário musical.

Estar envolvido com este negócio demanda do artista organização e disciplina, o que faz com que ele consiga enxergar com olhos mais profissionais o seu processo artístico e de criação.

Para a maioria dos músicos, o processo de criação depende muito de propósito e inspiração para que sua obra transmita verdade e naturalidade. Para conseguir abrir a mente e saber lidar com cobranças, comparações, críticas e autocríticas, tem-se recorrido a processos de autoconhecimento e de disciplina que, talvez, não víamos antes.

A luta para resgatar a essência da música envolve fortemente uma batalha contra os comodismos, os julgamentos próprios e a comparação com outros artistas. É necessário aperfeiçoamento pessoal constante, não só do estudo técnico desta arte (que muitos não buscam), mas, principalmente, do introspectivo, do intuitivo, do que vem de dentro.

Mesmo quando se trata do interno, é fundamental que exista maturidade para este tipo de trabalho, encarando com otimismo a organização, a disciplina, o “aprender a fazer sozinho”, o “sentir-se capaz”. Todos esses que estão no mundo artístico e cultural sabem bem o que é nadar contra a maré… É necessário ter coragem pra arriscar.

Estes sacrifícios vão, aos poucos, se transformando em peças indispensáveis no processo de
autoconhecimento. Seja espontaneamente, no chuveiro ou no carro; ou pela força do hábito de sentar numa cadeira e escrever, o processo de criação musical depende de rituais que ajudam a dar uma pausa na correria e encontrar uma brecha no pensamento descontrolado do dia a dia. Isso transmite energia, verdade e intensidade para a obra final, tornando a música uma verdadeira ferramenta de conscientização e transformação social.

Aqueles que querem espalhar sua mensagem sonora precisam fazer parte deste novo movimento musical, autônomo, árduo, amoroso e, como sempre, contracultural.

Gabriela Gusso

Este texto foi inspirado na roda de conversa sobre Processos e Inspirações na Composição Musical, realizada no Espaço Bamboo em 01/02/2018.